setembro 23, 2004

Fragmentos de neve


Cuerpo de lágrimas (tinta e cartão)
Rolando Estévez Jordán (1994)


Relembro ao longe, como um eco dentro da minha cabeça, umas palavras de Eugénio de Andrade, já não muito claras na minha memória:

“Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
A casca do tempo que caiu,
Uma lágrima, um barco, uma palavra.(…)”
(“Canção” in Antologia breve)


E, de repente, dou-lhes um novo significado... vejo-me a mim a tentar negar cada lágrima que me escorre pela face em dias como hoje, onde se junta a desilusão, o desespero, a impaciência, a ausência, o desapontamento e a derradeira partida.
E onde todos os que me rodeiam parecem contribuir para este caos interno que me torno, e de onde apenas floresce o que de pior me constitui, o lado negro... e antes que algum outro eu apareça... corro, fujo, quase desmaio, quase sufoco, quase me desintegro, tal é a velocidade com que corro para dentro de mim.
Repouso, silencio e encontro a minha paz...

-Não era uma lágrima… somente neve pura, meu amor.